O que faz uma casa envelhecer bem?
Atualizado: 6 de out.
Uma casa pode mudar, ganhar novas histórias e até atravessar gerações sem perder aquilo que a torna especial. Mas o que, afinal, faz um projeto continuar fazendo sentido com o passar dos anos?

É curioso pensar que, quando falamos sobre uma casa que envelhece bem, nossa primeira associação costuma ser com materiais resistentes, uma arquitetura atemporal ou escolhas que não saem de moda. Tudo isso importa, claro. Mas existe outra dimensão do tempo que talvez seja ainda mais interessante dentro de uma casa: aquilo que conseguimos levar conosco.
Vamos repensar um pouco sobre esse conceito de permanência e rigidez?
Peças que atravessam gerações: casa é um lugar de memória
Existe uma diferença entre decorar e personalizar uma casa. Na decoração, escolhemos elementos para compor um ambiente. Em uma casa vivida ao longo dos anos, nosso olhar adentra camadas que carregam muita pessoalidade.
Por exemplo, uma poltrona pode deixar de ser apenas uma poltrona depois de acompanhar diferentes momentos da família. Assim como uma mesa pode carregar as lembranças dos almoços de domingo. Uma obra de arte pode lembrar uma viagem, uma conquista ou alguém que já não está presente.
A arquitetura cria o espaço para essas histórias acontecerem.
Foi o que aconteceu em um dos projetos desenvolvidos por Sabrina Salles. Na sua casa, alguns móveis antigos continuam presentes justamente por essa relação. Entre eles, há um móvel que pertenceu ao seu filho, quando ele ainda era bebê. Hoje, ele faz parte de outro contexto, de outra fase da vida e de outra casa, mas continua carregando consigo aquele primeiro capítulo.

Percebe que é difícil imaginar uma decoração comprada inteiramente nova produzindo esse mesmo tipo de vínculo?
Por isso eu considero que, talvez, uma das características mais bonitas de uma casa que envelhece bem seja sua capacidade de incorporar novas memórias sem apagar as antigas.
Móveis antigos não precisam parecer antigos
Existe uma ideia equivocada de que um móvel herdado só encontra seu lugar em ambientes tradicionais, cercado por outras peças antigas. Mas não há receita pronta para isso. O que importa é encontrar a maneira de fazê-lo dialogar com o espaço e com o tempo presente.
Uma das coisas mais interessantes do design de interiores é justamente termos infinitas possibilidades de colocar diferentes tempos para conversar. E essa conversa com nossa casa, torna todo nosso entorno tão mais prazeroso.

Ora, uma mesa antiga pode dividir espaço com cadeiras contemporâneas. E por que não uma poltrona herdada não deveria receber um novo tecido? Um móvel de família pode ser incorporado a uma marcenaria atual. Uma obra de arte pode encontrar uma parede completamente diferente daquela em que esteve durante anos.
Percebe como uma reforma ou repaginada não significa necessariamente desapegar? A peça não precisa permanecer congelada no passado para preservar sua história, Ela pode mudar de contexto sem perder o significado.
Essa é uma das razões pelas quais móveis de qualidade podem se tornar patrimônio. Com vida muito mais longa do que a de uma tendência, peças assinadas acompanham diferentes fases da família e podem, inclusive, passar de uma geração a outra. É uma ideia próxima à tradição das artes decorativas, em que mobiliário, autoria e memória permanecem entrelaçados: escolhe-se hoje uma peça capaz de adquirir ainda mais significado com o tempo.
E é por isso que eu acredito que, hoje, mais do que nunca, a permanência se tornou um artigo de luxo. Há algo de muito prazeroso em conservar aquilo que tem significado e permitir compartilhar isso no decór.
Quando reformar significa preservar uma história
Neste projeto na Aclimação, o apartamento já fazia parte da história dos moradores. Eles não estavam simplesmente chegando a um imóvel novo e começando uma vida ali. A proposta era transformar a casa em que já viviam.
Em vez de pensar apenas no que poderia ser acrescentado, era preciso olhar para aquilo que já existia e entender o que deveria permanecer. Móveis antigos de madeira, tapetes persas, peças de prataria e outros elementos que já pertenciam à família passaram a fazer parte da nova composição.
E esse é um exercício interessante para qualquer reforma: o que realmente precisa ser substituído? Nem sempre é necessário trocar uma peça porque ela é antiga. Às vezes, justamente por ser antiga, ela possui uma presença que seria difícil reproduzir.
A casa não perde aquilo que já era dela. Ela simplesmente ganha uma nova leitura.
Escolher pensando no que pode permanecer
Em vez de pensar que cada ambiente precisa estar completamente resolvido de uma vez, algumas escolhas podem ser feitas com mais calma, procurando peças que tenham qualidade, personalidade e significado suficiente.
Uma obra de arte, por exemplo, não precisa ser escolhida para combinar perfeitamente com o sofá ou com a cor da parede. Uma peça artesanal ou um objeto encontrado em uma viagem pode entrar na casa sem que exista, naquele momento, uma certeza sobre onde ele ficará para sempre.
A casa também pode ser construída aos poucos.
É claro que existe uma importância estética na relação entre cores, materiais, proporções e estilos. Mas uma casa que pretende carregar a história de uma família não precisa parecer que teve todos seus artigos escolhidos no mesmo dia, na mesma loja e seguindo a mesma referência.
No fim, talvez uma casa envelheça bem justamente quando permite isso:
que o presente conviva com aquilo que veio antes e continue aberto para aquilo que ainda vai chegar.
Sabrina Salles - Arquitetura com Propósito
Telefone: +55 11 99609-7229



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